Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2006

Declaração de Jerónimo de Sousa

Declaração de Jerónimo de Sousa,
sobre as Eleições Presidênciais 2006
22 de Janeiro de 2006

 


1. As eleições Presidenciais que hoje ocorreram ficam marcadas por dois elementos: a eleição de Cavaco Silva e uma grande votação obtida pela minha candidatura que, independentemente do desfecho final, constitui um estímulo para a afirmação do projecto que a norteou e uma garantia de que prosseguirá com confiança e determinação o combate por um Portugal com futuro.
2. A eleição de Cavaco Silva à primeira volta marca negativamente o resultado da presente eleição para a Presidência da República. Há entretanto que notar o facto de este resultado se ter verificado por uma pequena margem de votos bem distante das coroações antecipadas que alguns lhe vaticinavam. Um resultado que revela (como repetidamente afirmámos) pela escassa margem verificada, ter estado ao alcance dos que a ele se opunham impor-lhe a derrota que o seu projecto exigia, se tivesse existido em outras forças políticas, o empenhamento com que a minha candidatura travou esta batalha.
3. Suportada numa campanha ao serviço da qual se concentraram os mais poderosos meios económicos, beneficiando de apoios e simpatias indisfarçáveis dos principais grupos de comunicação social e projectada para branquear o passado do candidato e esconder os seus projectos e ambições para o futuro, a direita logrou, trinta anos volvidos sobre o 25 de Abril, apoderar-se deste órgão de soberania. Num quadro em que sem hesitações e com determinação a minha candidatura alertou para os riscos e consequências da vitória do candidato da direita e, com clareza, ergueu o objectivo de o impedir, não é possível deixar de chamar a atenção para o conjunto de factores que favoreceram a eleição de Cavaco Silva. Na verdade Cavaco Silva beneficiou (para além dos poderosos meios e facilidades) das hesitações, atitudes e posicionamentos do PS, e do seu Governo, que desde a primeira hora contribuíram para ampliar as possibilidades eleitorais de Cavaco Silva. As hesitações e ambiguidades que marcaram desde sempre a posição do PS, a notória falta de empenhamento posta na campanha associada ao baixar de braços e à resignação patenteada pela direcção do PS perante as exigências deste combate político jogaram a favor do desfecho final destas eleições. Ao que se associou ainda, e não com menor peso, o aumento do descontentamento social que o prosseguimento da política de direita do Governo de Sócrates e a multiplicação de decisões anti-populares (algumas das quais tomadas durante o período eleitoral) legitimamente gerou e do qual Cavaco Silva soube, hipocritamente, reverter a seu favor.
4. Ao contrário do que alguns, para iludir as suas responsabilidades, sustentam, uma das vantagens de que Cavaco beneficiou residiu, não na existência de mais do que um candidato à sua esquerda, mas sim, nas divisões, desmobilização e rendição antecipada que o PS protagonizou, bem patente na simples leitura dos resultados eleitorais.
5. Com a vitória de Cavaco Silva não foi o país que ganhou em estabilidade mas sim a política de direita e as condições para ser prosseguida. Com a vitória de Cavaco Silva é, não Abril e a Constituição que saem defendidos e reforçados, mas sim, a aspiração à liquidação de direitos e ao apagamento de importantes conquistas de Abril que os sectores mais reaccionários do capital nacional há muito formulam. Como repetidamente prevenimos a eleição de Cavaco Silva introduz factores negativos no actual quadro político e social, não deixará de animar os sectores mais reaccionários e revanchistas da direita e do grande capital e o seu desejo de voragem dos recursos e da riqueza nacional, torna mais exigente e complexa a luta por uma ruptura democrática e de esquerda com a política de direita.
6. O resultado obtido pela minha candidatura — mais de 8,5%, muito acima das últimas eleições presidenciais, representa um importante avanço se comparado com o resultado obtido pela CDU nas Legislativas de 2005, aproximando-se do meio milhão de votos e traduzindo-se em significativas vitórias de que são exemplo o Distrito de Beja e numerosos concelhos — constitui, apesar e sem prejuízo do desfecho negativo que a eleição de Cavaco traduz, um importante sucesso eleitoral e um factor de ânimo para os que não se conformam com a política de direita e acreditam que não só é necessário como é possível uma alternativa e uma política de esquerda que reponha a esperança num Portugal melhor e com futuro. Este resultado, confirmando a corrente de apoio que acompanhou esta candidatura, é sobretudo um sinal de confiança de muitos milhares de portugueses e portuguesas que não se resignando perante as injustiças e as desigualdades acreditam que é possível um novo rumo para o país. A todos eles, aos trabalhadores e ao povo português, quero aqui reafirmar a inabalável determinação de honrar o apoio recebido e de prosseguir o trabalho e a luta em defesa dos direitos e conquistas sociais, pela melhoria das condições de vida, por uma viragem democrática e de esquerda na vida política nacional.
7. A minha candidatura em redor da qual se criou e ampliou uma larga corrente de apoio confirmou-se ao longo desta campanha como uma referência de esperança num Portugal com futuro. Uma candidatura que mais do que expressão de um só homem é construção colectiva de milhares de homens e mulheres, jovens e menos jovens, unidos pela força dos valores que defendem e pela enorme confiança no futuro do país que é seu. Ultrapassando as fronteiras das forças políticas que lhe deram suporte e apoio (o PCP, o PEV e a ID), esta candidatura — em torno da qual se reuniram, no apoio e no incentivo à sua intervenção, milhares de homens e mulheres sem partido ou com outras opções políticas — constituiu uma expressão de confiança e de determinação numa vida melhor que perdurará para além deste dia e destas eleições.
8. Daqui, quero saudar todos quantos – comunistas, verdes, independentes, apoiantes doutras forças – com a sua acção, o seu apoio, a sua palavra de simpatia ou incentivo deram força a esta candidatura e aos valores de Abril que comporta; todos quantos reconheceram nesta candidatura uma clara opção pelo lado dos trabalhadores, dos pequenos e médios empresários, dos reformados, dos mais injustiçados; todos quantos com o seu apoio e o seu voto elevaram mais alto a exigência de uma ruptura democrática e de esquerda com as políticas de direita que tantas dificuldades têm lançado sobre o povo e o país. A todos eles, aos trabalhadores e ao povo português quero reafirmar que o seu apoio e os seus votos encontrarão em mim e no projecto colectivo pelo qual luto – hoje, amanhã e sempre – uma presença activa na defesa dos seus direitos e das suas aspirações a uma vida melhor.

extraido de:Jerónimo de Sousa - Eleições Presidenciais 2006

A Bandeira Vermelha editou às 20:45

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